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ASSIM FALOU ALLAN KARDEC

(Sobre a comunhão do pensamento)

                “Caros irmãos e irmãs espíritas.

                “Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para dar aos nossos irmãos que deixaram a terra, um testemunho particular de simpatia; para continuar as relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós em vida, e para chamar sobre eles as bondades do Todo-Poderoso.

Mas, por que nos reunir? Não podemos fazer, cada um em particular, o que nos propomos fazer em comum? Qual a utilidade que pode haver em se reunir assim num dia determinado?

                “Jesus no-lo indica: ‘Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com elas’ (Mateus, XVIII, 20). Esta utilidade está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objetivo.

                “Mas, compreende-se bem todo o alcance da expressão: Comunhão de pensamentos? Seguramente, até este dia, poucas pessoas dela tinham feito uma idéia completa. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas, pelas leis que nos revela, vem ainda nos explicar a causa, os efeitos e o poder desta situação do espírito.

                “Comunhão de pensamentos quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento seja uma força; mas é uma força puramente moral e abstrata?!  Não, do contrário não explicariam certos efeitos do pensamento, e, ainda menos, a comunhão do pensamento. Para o compreender, é preciso conhecer as propriedades  e a ação dos elementos  que constituem a nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

                “O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria: sem o pensamento, o espírito não seria espírito. A vontade não é atributo especial do espírito: é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento tornado força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se ele tem a força de agir sobre os órgãos materiais, como não deve ser maior esta força sobre os elementos fluídicos que nos cercam !  O pensamento age sobre os fluidos ambientes como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento como o ar nos traz o som. Pode, pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que cruzam sem se confundir, como há no ar ondas e raios sonoros.

      “Uma assembléia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos em que cada um produz a sua nota; Resulta daí uma porção de correntes e de eflúvios fluídicos, cada um dos quais recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

     “Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se for discordante, a impressão será penosa. Ora, para isso não é preciso que o pensamento seja formulado em palavras; a radiação fluídica não existe menos, seja ou não expressa; se todas forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e sentir-se-ão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

      “Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí reina como que uma atmosfera moral salubre, onde se respira à vontade; daí se sai reconfortado, porque se ficou impregnado de eflúvios fluídicos salutares. Assim se explicam, também, a ansiedade, o mal-estar indefinível que se sente num meio antipático, em que pensamentos malévolos provocam, por assim dizer, correntes fluídicas malsãs.

                “A comunhão de pensamentos produz, assim, uma espécie de efeito físico, que reage sobre o moral; é o que só o Espiritismo poderia dar a compreender. O homem o sente instintivamente, desde que procure as reuniões, onde sabe que encontra essa comunhão. Nas reuniões homogêneas e simpáticas adquire novas forças morais; poder-se-ia dizer que aí recupera as perdas fluídicas que tem diariamente, pela radiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material”.

                “A esses efeitos da comunhão dos pensamentos junta-se um outro que é a sua conseqüência natural e que importa não perder de vista: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade pelo conjunto de pensamentos ou vontades reunidas. Sendo a vontade uma força ativa, esta força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número dos braços.  

“... Se, até o presente, as reuniões muito numerosas são menos favoráveis, isto se deve à dificuldade de obter uma homogeneidade perfeita de pensamentos, o que depende da imperfeição da natureza humana na terra...”

(Trecho extraído do discurso de abertura da sessão anual comemorativa dos mortos, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – SPEE –  dia 1º de novembro de 1868. Publicado na Revista Espírita de dezembro de 1868 – Coleção EDICEL, págs. 351 a 353)