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ASSIM FALOU ALLAN KARDEC

   (Sobre a evocação dos Espíritos)

                “Os Espíritos podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso chamado, isto é, vir por evocação. Pensam algumas pessoas que todos devem abster-se de evocar tal ou qual Espírito e ser preferível que se espere aquele que queira comunicar-se. Fundam-se elas em que, chamando determinado Espírito, não podemos ter a certeza de ser ele quem se apresente, ao passo que, aquele que vem espontaneamente, de seu moto-próprio, melhor prova a sua identidade, pois que manifesta assim o desejo que tem de se entreter conosco. Em nossa opinião, isso é um erro: primeiramente, porque há sempre em torno de nós Espíritos, as mais das vezes de condição inferior, que outra coisa não querem senão comunicar-se; em segundo lugar, e, mesmo por essa última razão, não chamar nenhum Espirito em particular é o mesmo que abrir a porta a todos os que queiram entrar. Numa assembléia, não dar a palavra a ninguém é o mesmo que deixá-la livre a toda a gente e sabe-se bem o que daí resulta. A chamada direta de determinado Espírito constitui um laço entre ele e nós; chamamo-lo, impulsionados pelo nosso desejo e opomos assim uma barreira aos intrusos. Sem uma chamada direta, um Espírito nenhum motivo terá muitas vezes, para vir confabular conosco, a menos que seja o nosso Espírito familiar...”. (L.M, parte II, cap. XXV, ítem 269)

      NOSSO COMENTÁRIO

     Allan Kardec, como um bom cientista que era, dava grande valor à evocação dos Espiritos, porque, na sua opinião, este era o melhor instrumento de pesquisa da ciência espírita. A maior prova disto é que já na sua primeira obra, “O Livro dos Espíritos”, publicado em 1857, logo na introdução, no ítem em que apresenta um “resumo da Doutrina Espírita”, ele nos diz: “Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou pela evocação” e afirma ainda: “Podemos evocar todos os Espiritos (...) e deles obter, por comunicações escritas ou  verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no espaço, o que pensam a nosso respeito, bem como nos fazer revelações que forem autorizadas.” (Introd., ítem VI, pág. 26 da 81ª edição da FEB).      

     Na questão nº 935, respondendo a uma pergunta de Kardec, os Espíritos disseram: “- Não pode haver profanação, quando, numa sessão de evocação, houver recolhimento e quando a evocação for praticada respeitosa e convenientemente; e a maior prova disto é que os Espíritos que vos são afeiçoados acodem com prazer ao vosso chamado; sentem-se felizes por saberem que não estão esquecidos e por poderem se entreter convosco”; haveria, sim, profanação, se a evocação fosse feita com leviandade, interesses frívolos e fúteis, simples brincadeira”.

     Em “O Que é o Espiritismo”, publicado em 1859 edição do Instituto de Difusão Espírita de Araras/SP, encontramos o seguinte: “... afinidades fluídicas devem existir entre o Espírito evocado e o médium.” (pág. 62); e, “Seguramente, colocamos um sentimento de religiosidade nas evocações e nas nossas reuniões, mas não há fórmula sacramental; para os Espíritos o pensamento é tudo; nós os chamamos (evocamos) em nome de Deus...” (pág. 90) e mais: “A proibição de se evocar os Espíritos imposta por Moisés tinha uma razão de ser: não se evocavam os Espíritos dos mortos por respeito e afeição por eles, nem com um sentimento de piedade; a evocação era um meio de adivinhação,  objeto de um tráfico vergonhoso, explorado pelo charlatanismo e pela superstição; portanto, Moisés teve razão em proibí-la” (pág. 99).

      Mas, voltemos a “O Livro dos Médiuns”, publicado em 1861, com que iniciamos esta coluna, livro que tem como subtítulo “Guia dos médiuns e dos evocadores”. No ítem 270, Allan Kardec deixou bem claro: “Quando se deseja comunicar com um determinado Espírito, é de toda a necessidade evocá-lo”. Antes, no ítem 203, Kardec já havia esclarecido que “a evocação deve ser feita sempre em nome de Deus” e explica como fazê-la. No ítem 272, esclarece que “freqüentemente as evocações oferecem mais dificuldades aos médiuns do que os ditados espontâneos (...) Para isto são necessários médiuns especiais, ao mesmo tempo flexíveis e positivos...” E, anteriormente, no ítem 192, ele já havia explicado que os “médiuns maleáveis são aqueles cuja faculdade se presta mais facilmente aos diversos gêneros de comunicações e pelos quais todos os Espiritos, ou quase todos, podem manifestar-se espontaneamente, ou por evocação”.

     No ítem 8 do nº 282, cap. XXV, está bem claro: “O Espírito superior atende sempre que é chamado com uma finalidade útil. Só se recusa a apresentar-se e a responder a perguntas em reuniões de pessoas pouco sérias, frívolas, que só fazem evocação por divertimento”.

     Em “Obras Póstumas”, quando Allan Kardec fala da necessidade de um “estabelecimento central”, que seria um “local convenientemente situado e disposto para as reuniões e para as recepções”, ele sugere que aí “haja sempre um compartimento  consagrado às evocações íntimas”. (0.P., segunda parte, pág. 341 da 19ª edição da FEB).

     Na Revista Espírita de março de 1858, Allan Kardec mostra a “utilidade de evocações particulares” e conclui assim: “... quando o Espírito de nossos parentes, amigos e conhecidos se nos manifesta, ocorrem mil e uma circunstâncias de detalhes íntimos, nos quais a identidade não poderia ser  posta em dúvida; adquirindo, de certo modo, a prova material. Pensamos, pois, que nos agradecerão se fizermos de vez em quando, algumas dessas evocações íntimas”.

     Na Revista Espirita de julho de 1859 está um longo discurso de Allan Kardec, pronunciado na S.P.E.E. pelo encerramento do ano social..

     Em certo trecho ele diz: “Dois sistemas igualmente preconizados e praticados se apresentam em relação   às comunicações de além-túmulo: uns preferem esperar as comunicaçoes espontâneas; outros as provocam por um apelo direto a este ou aquele Espírito (ou seja, fazem a evocação)”.

      Mais adiante, ele nos diz qual é sua posição diante desses dois sistemas:  “- Quanto a nós, apenas condenamos a exclusividade de sistema. Sabemos que ótimas coisas são obtidas de um e de outro modo. Se preferimos o segundo sistema (evocação), é porque a experiência nos ensina que, nas comunicações espontâneas, os Espíritos dos mistificadores não deixam de se enfeitar com nomes respeitáveis, tanto quanto nas evocações. Têm mesmo o campo mais livre, ao passo que com as perguntas que fazemos nós os dominamos muito mais facilmente (...) mas é preciso saber formular e encaminhar metodicamente as perguntas (...) Convenientemente dirigidas, as evocações podem ensinar muito...” (Coleção EDICEL, págs. 192 e 193)-

     Nesse mesmo discurso, Kardec diz que “há em Paris uma porção de centros espíritas que realizam reuniões íntimas (...) Conheço algumas em que as evocações são feitas nas melhores condições e onde são obtidas coisas notáveis...” (pág. 200)

     Mais adiante ele pergunta: “ – Somos nós os únicos capazes de promover reuniões sérias para a evocação de Espíritos superiores?”. E ele próprio responde: “ – Seria muito ridículo pensar assim”. E acrescenta: “ – Aquilo que nós fazemos, outros podem fazê-lo também. Portanto, que outras sociedades se ocupem então de trabalhos iguais aos nossos...” (pág.; 201)

     Na Revista Espírita de abril de 1860, há um discurso de Allan Kardec, no qual, em certo trecho, ele repete: “ – Aquilo que eu fiz outros podem fazê-lo também...” (pág. 108 da Coleção EDICEL).

     É mais do que claro e evidente que isto que ele disse se aplicava tanto aos espíritas seus contemporâneos, como também aos  das gerações posteriores. Se assim não fosse, ele não teria incluído em “O Livro dos Médiuns” todo um longo capítulo com trinta e duas páginas sobre as evocações e outro de onze páginas em que mostra quais as  perguntas que podemos dirigir aos Espiritos evocados. É lógico, senão tudo que ele escreveu sobre esse tema  -  a evocação dos Espíritos – teria sido engavetado por ele, como fez em relação a outros temas. E assim, após sua desencarnação, teria sido  incluído nas “Obras Póstumas”, livro que  veio a ser publicado anos mais tarde. É claro como água!  Mas não, ele fez questão de incluir, com riqueza de detalhes,  no cap. XXV de “O Livro dos Médiuns”, que classificou como o “guia dos evocadores”.

     No Brasil, onde o Espiritismo foi introduzido pelos chamados “pioneiros”, indivíduos muito carolas, é claro que a evocação dos Espíritos tinha mesmo que se transformar num verdadeiro tabu, porque a Igreja sempre condenou a prática da evocação. Tinha, sim, porque, desde o século XIX, o movimento espírita nacional vem sendo dirigido pelos roustainguistas da FEB, aos quais se juntaram, a partir de 1927, os  jesuítas do Padre Manuel da Nóbrega, que retornou à antiga colônia com o pseudônimo de Emmanuel, nome adrede escolhido, porque, segundo Mateus, significa “Deus conosco”. E assim, mais facilmente, pôde influenciar a mente dos incautos. Foi por isso também que ele, inteligentemente e, agindo com muita perspicácia, incluiu em seu livro “O Consolador” a questão nº 368 em que declara, taxativamente: “ – De modo algum se deverá provocar as manifestações mediúnicas...” e a questão nº 369, em que, como um bom jesuíta, declarou, enfaticamente: “ – Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum” (págs. 206 e 207 da 11ª edição da FEB). E, logicamente, como Emmanuel sempre foi o guia e mentor espiritual do médium Chico Xavier, e este, desde pequeno, sempre foi muito ligado à igreja,  é claro que ele tinha que seguir seu mestre e orientador. Por isso declarou certa vez em entrevista para os jornais espíritas: “- O telefone só toca de lá (do Além) para cá (mundo dos homens)”.

     E assim todas as questões polêmicas, dentro do movimento espírita brasileiro, que envolvem a figura e o nome de Allan Kardec, continuarão sempre provocando discussões e dividindo as opiniões. Por exemplo: a) As instruções  atribuídas ao Espírito de Allan Kardec, ditadas por ele no Grupo Espírita Fraternidade, por meio da psicografia de Frederico da Silva Junior, médium roustaingusta a serviço da FEB, seriam realmente autênticas? b)  Allan Kardec (Espírito) renegou o que havia dito em “A Gênese” e se tornou  também  roustainguista, como afirmou Luciano dos Anjos em seu livro “Os Adeptos de Roustaing”, pág. 30, publicado pelo Associação Espírita Estudantes da Verdade, de Volta Redonda/RJ, em 1993? c) O médium mineiro Francisco Cândido Xavier foi mesmo a reencarnação de Allan Kardec, como afirmou Carlos Bacelli de Uberaba/MG, confirmando o que havia dito a Dra. Marlene Nobre?... E muitas outras questões.

     E o Espírito de Allan Kardec o que pensará de tudo isso? Só mesmo sendo evocado  se poderá saber.

     Alega-se que ele agora, lá na Pátria Espiritual, tem coisas mais importantes para tratar; não pode, portanto, se preocupar com insignificâncias, com ninharias.

     Neste ponto, discordamos em gênero, número e grau, porque Allan Kardec, quer como educador, quer como codificador, quer ainda como cientista espírita, sempre esteve a serviço do Espírito de Verdade; sempre teve em mira a busca da verdade. E depois tendo levado muito a sério o anúncio de sua volta ao plano físico, aqui em nosso planeta, é claro que seu Espírito sempre vem mantendo uma afinidade, uma ligação muito forte, com seus discípulos e continuadores, principalmente aqueles que defendem a pureza doutrinária e o  verdadeiro Espiritismo.

     Portanto,  para conhecermos a verdade dos fatos, só vemos uma solução, para nós, a mais lógica e mais acertada: a EVOCAÇÃO DO ESPÍRITO DO MESTRE  ALLAN KARDEC. 

     A propósito, quando digo que sou a favor da evocação dos Espíritos nos moldes apresentados por Allan Kardec, muitos confrades me dizem que são contra porque Emmanuel e o Chico não a recomendam. Mas, - ora bolas! – não foi o próprio Emmanuel que disse ao seu médium que, se um dia ele se pronunciasse contra o que disse o Codificador, deveria ficar com Kardec e esquecer o que ele tinha falado? Então?! Seguindo, portanto, a própria orientação dada por Emmanuel, temos mesmo é que ficar com o Mestre lionês, Allan Kardec, que preferia e evocação e sempre nos aconselhou a que usássemos também  este precioso instrumento de pesquisa da Ciência Espírita.

      Outros nos respondem que não há aqui médiuns especiais, maleáveis, flexíveis, para que se possa fazer a evocação dos Espiritos, o que não corresponde à verdade. Não corresponde porque o Brasil é um grande celeiro, um imenso reduto de ótimos médiuns a serviço da causa espírita. É só tentar, de maneira certa, correta, séria, honesta e responsável, de conformidade com as instruções contidas no “Livro dos Médiuns” ou Guia dos Evocadores que os Espíritos evocados aparecerão, não tenhamos dúvidas, porque, como o próprio Kardec afirmou, eles estão ansiosos para atender ao nosso chamado e dialogar conosco.