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ASSIM FALOU ALLAN KARDEC

     (Sobre a publicação de obras espíritas)

 

     “Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos aqueles que deixaram na Terra o envoltório visível. Despojando-se do homem carnal, nem todos se revestiram, por isso mesmo, da túnica dos anjos.

      “Há Espíritos de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade – eis o que não podemos perder de vista.

       “Não esqueçamos que, entre os Espíritos, no espaço, assim como entre os homens, na Terra, há seres levianos, (grifo nosso) desatentos e brincalhões; falsos sábios, vãos e orgulhosos, de um saber incompleto; hipócritas, malévolos, e, o que nos parecia inexplicável, se não conhecêssemos a fisiologia desse mundo, há sensuais, vilões e crapulosos, que se arrastam na lama. Ao lado disto, tal como ocorre na Terra, temos também seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, de sublimes virtudes ...

      “... Desde que esses seres  (invisíveis) têm um meio patente de se comunicar com os homens (pela mediunidade),  suas comunicações  devem ser um reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios (...) Revelam-se por sua própria linguagem. Daí a necessidade de não se aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto; a necessidade de se submeter tudo a um controle severo.  (grifo nosso)

     “... Ao lado das comunicações francamente más, que chocam a qualquer ouvido um pouco delicado, outras há que são triviais e ridículas...

     “... o mal está em apresentar seriamente coisas que são notórios absurdos(grifo nosso) Alguns mesmo podem ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, e às quais atribuímos uma linguagem indigna. As pessoas que estudaram a fundo a ciência espírita sabem qual é a atitude que convém a esse respeito. Sabem que os Espíritos zombeteiros não têm o menor escrúpulo de se enfeitar com nomes respeitáveis. Mas sabem também que esses Espíritos só abusam daqueles que gostam de se deixar abusar... (grifo nosso)

      “... há comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender.  (grifo nosso)...

     ... os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. (grifo de Kardec). As comunicações (...) simplesmente falsas, absurdas e ridículas, só podem emanar de Espíritos inferiores; o simples bom senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que se vêm complacentemente escutados; ligam-se àqueles que admiram as suas tolices, e, muitas vezes, se apoderam deles e os dominam a ponto de os fascinar e subjugar (...) O único e verdadeiro  meio  ( que temos ) de os afastar é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando, impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo aquilo que não for racional, tudo aquilo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de cujo nome ele se serve. (Grifo nosso) Então, quando vê que perde o seu tempo, afasta-se.

      “Julgamos ter respondido suficientemente à pergunta de um nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar, sem exame, , ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte, seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Esta é a nossa opinião pessoal, que apresentamos à apreciação daqueles que (...) podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de dizer a nossa maneira de pensar sobre a ciência que é objeto dos nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, não pretendendo impor nossas idéias a quem quer que seja, nem apresentá-las como leis. Os que partilham da nossa maneira de ver é porque crêem, como nós, estar com a verdade. O futuro mostrará quem está errado e quem está certo”. (A íntegra desta instrução de Allan Kardec, se encontra na “Revista Espírita” de novembro de 1859 – lançamento EDICEL, págs. 313 a 316, ou então na obra “Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita”, - lançamento da Editora da FEB – págs. 73 a 79).

NOSSO COMENTÁRIO  

     Essa “Instrução” de Allan Kardec data, como se vê,  de 1859, ano em que Jean Baptiste Roustaing caiu gravemente enfermo e ainda não conhecia nada de Espiritismo. Foi somente em 1861 que veio a ler “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”, passando então a se considerar espírita, como comunicou por carta a Allan Kardec.

     Foi também em dezembro desse ano (1861) que foi à casa de Madame Emilie Collignon e tomou conhecimento da missão que lhe cabia. Alguns Espíritos mistificadores, enfeitando-se com os nomes respeitáveis dos Evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, e de Moisés, se apresentaram à médium, na presença dele, Roustaing, e lhe disseram que lhe cabia organizar e publicar uma obra com o título de “Os Quatro Evangelhos”, que seria a “revelação da revelação”, portanto, colocada acima da Terceira Revelação levada a efeito pelo Missionário de Lyon sob a assistência do Espírito de Verdade e sua gloriosa Falange Espiritual...

     E Roustaing fez  tudo à revelia de Allan Kardec. Não levou a ele as comunicações que recebia dessa médium; não o consultou em nenhum momento; não pediu sua opinião sobre as mensagens que já tinha em mãos; não pediu conselhos. Não fez nada disso que compete a um leal assistente ou secretário, ou adjunto fazer. E o pior é que, quando achou que já era hora de publicar os originais da obra que tinha em seu poder, foi à editora e mandou que publicassem tudo.

     Foi assim que, em meados de 1866, foi lançada ao público, essa obra apócrifa intitulada “Os Quatro Evangelhos”. Digo “apócrifa”, sim, porque, depois de a ler, Allan Kardec, agindo imparcialmente e sem nenhuma idéia preconceituosa, embora tivesse encontrado nela muitos pontos duvidosos e a considerasse muito prolixa e repetitiva demais, chegou mesmo a elogiá-la e a aconselhar sua leitura. Essa atitude do querido Mestre lionês não é de estranhar porque ele próprio havia dito que nós, espíritas, temos que ler de tudo, até mesmo os contras (L.M. parte I, cap. III, número 35 – dois últimos parágrafos).

     Mas ele deixou bem claro que as explicações encontradas na obra nada mais eram do que “opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam; podem ser justas ou falsas, por isso mesmo necessitam da sanção do controle universal; até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas, como partes integrantes da doutrina espírita” (R.E. junho/1866 – EDICEL, pág.180).

     Além disso, quase dois anos depois, ou seja, em 6 de janeiro de 1868, em Paris, Kardec publicou sua última obra “A GÊNESE”, em que nega, peremptoriamente, todas as explicações, todos os argumentos utilizados por Roustaing (“A Gênese”, cap. V, ns. 65, 66 e 67).

     Pois bem, apesar de tudo isto, constantemente se sucedem no palco os bobos da corte, querendo fazer-nos morrer de rir com suas piadas: uns dizendo que a Federação Espírita Brasileira (FEB) não é, nunca foi, nem nunca será roustainguista, portanto não serve a dois senhores ao mesmo tempo; é, muito ao contrário, kardecista, “somente kardecista”; outros, humoristicamente declarando que no art. lº do Estatuto da FEB, não há nenhum parágrafo único, dizendo que a obra de Roustaing  é complementar às da Codificação Kardecista; outros, a declarar que o Espírito de Allan Kardec, “o bom senso encarnado”, lá em cima se arrependeu de ter sido o Codificador do Espiritismo, e passou a ser também roustainguista, como Luciano dos Anjos publicou em sua obra intitulada “Os Adeptos de Roustaing”. Teve um que chegou ao cúmulo de dizer que “o roustainguismo é um curso superior de espiritismo”, querendo dizer com isto que o prof. Rivail foi apenas um mestre escola a ensinar as primeiras letras, enquanto o advogado de Bordéus foi um catedrático, meritíssimo reitor de uma universidade.

      Houve mesmo um grupo que se reuniu num teatro em outubro de 1949, e representou uma comédia muito engraçada, digna de Molière, intitulada “Pacto Áureo”. Estavam todos sob a proteção do Espírito do Regenerador, anunciado por Roustaing. E não foi preciso discussão nenhuma para proclamarem, alto e bom som, que “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro ‘Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, ditado pelo Espírito de Humberto de Campos, pela psicografia de Chico Xavier, publicado pelo Departamento Editorial da FEB em 1938, com prefácio de Emmanuel = leia-se: padre Nóbrega”. Essa obra ridiculariza Jesus, o Homem de Nazaré; coloca o Cordeiro de Deus acima do Espírito de Verdade e chega a afirmar, mentirosamente, que Jean Baptiste Roustaing foi auxiliar de Allan Kardec.

      Confesso que, quando tomei conhecimento disto, através de um arlequim que se apresentava num espetáculo a que assisti num circo de Bordéus, montado na praça da Alegria, em São Paulo, caí na gargalhada. Ri tanto que quase morri naquela hora. Foi preciso que me levassem para um hospital, onde fiquei algum tempo na U.T.I. Mas, graças a Deus e à proteção dos Amigos Invisíveis, consegui me restabelecer. E, vejam só, voltei a freqüentar os espetáculos circenses.

      Certa vez, fui, não a um circo, e sim a um teatro de comédias, assistir à apresentação de um palhaço, que, em entrevista à imprensa espírita, se apresentou como sendo a reencarnação de Molière. Pois não é que, em certo momento do espetáculo, ele, mostrando um livro que trazia na mão direita, pediu a atenção de todos e disse:” - Respeitável público, vocês sabem quem foi a reencarnação do Mestre Allan Kardec? Não sabem? Pois eu sei: foi este aqui”. E apontou para um dos dois vultos que apareciam na capa do livro: o Chico....