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ASSIM FALOU ALLAN KARDEC

    (Sobre “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing)

      “... É um trabalho considerável, que tem o mérito de não estar, em nenhum caso, em contradição com a doutrina (...) As partes correspondentes às que tratamos no Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais, que, com raras exceções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita.

     “O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões, que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por conseqüência, lhe deixamos a responsabilidade, como também aos Espíritos que as comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem, não daremos às suas teorias nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos  que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita.

      “Quando tratarmos destas questões, fá-lo-emos decididamente. Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria. É assim que temos feito, todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Dissemo-lo cem vezes, para nós a opinião de um Espirito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual. Nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos...

      “Dissemos que o livro do sr. Roustaing não se afasta dos princípios do Livro dos Espíritos e do Livro dos Médiuns. Nossas observações são feitas sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências  da materialidade e de fato um agênere. Aos olhos dos homens, que não tivessem  então podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado em aparência, expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, para todas as vicissitudes da humanidade. Assim, seria explicado o mistério de seu nascimento: Maria teria tido apenas as aparências da gravidez. Posto como premissa e pedra angular, este ponto é a base em que se apóia para a explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus.

     “Nisto, nada há de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do envoltório perispiritual. Sem nos pronunciarmos pró ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errada, em falta de base, todo o edifício desabaria.. Esperamos, pois os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos e que contribuirão para elucidar a questão. Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal.

     “Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra, que, ao lado de coisas duvidosas, (...), encerra outras, incontestavelmente, boas e verdadeiras, e será consultada com fruto pelos Espíritas sérios.

     “Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e contribui com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se, limitando-se ao estritamente necessário, a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume, e teria ganho em popularidade”

       (Extraído de “Notícias Bibliográficas”, Revista Espírita de junho de 1866, págs. 188 a 190 – lançamento da EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho). (os grifos em negrito são nossos)

NOSSO COMENTÁRIO

     É voz corrente desde 1938, quando o médium Chico Xavier lançou, pela Editora da FEB o livro “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evanvelho”, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, com prefácio de Emmanuel, que J. B. Roustaing auxiliou Allan Kardec na obra da Codificação do Espiritismo, designado que fora por uma Assembléia Espiritual, presidida pelo Cordeiro de Deus, para “coadjuvá-lo” nessa tarefa (pág. 176 da 11ª edição). Fica bem claro, portanto, que o conceituado Advogado de Bordéus ficaria numa posição hierárquica inferior ao do Missionário de Lyon: um simples auxiliar. E ele próprio reconheceu esta diferença,  quando, por carta, tratou Kardec como “muito honrado chefe espírita” (R.E.  junho/1861).

       Para Roustaing, portanto, Allan Kardec, dentro do Movimento Espírita francês da época, era o Chefe, o Superior hierárquico, o Líder.

       Por outro lado, foi, lendo e estudando “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”, que Roustaing  se tornou espírita, como ele próprio declarou, reconhecendo, publicamente a superioridade intelectual do Missionário da Terceira Revelação.

       Por conseguinte, por uma questão de lógica e bom senso, tão logo recebeu da médium Émilie Collignon, em dezembro de 1861, a manifestação de Espíritos que se identificaram como sendo os “Evangelistas, assistidos pelos Apóstolos”, “incitando-o a empreender a explicação dos Evangelhos (...)  e publicá-la como sendo a revelação da revelação” (Prefácio de “Os Quatro Evangelhos”, pág. 65 da 6a edição da FEB), Roustaing deveria ter dado ciência a Kardec e pedido seu conselho, sua opinião abalizada de Mestre e Superior hierárquico, para saber que atitude deveria tomar. Mas não foi o que aconteceu. Roustaing, tomado de extrema vaidade, se fechou em copas, isolou-se, completamente, fez tudo à revelia do Mestre e Chefe Espírita, e só, quando, em maio de 1866, a obra “Os Quatro Evangelhos”, estava devidamente pronta para ser levada ao público, resolveu mandá-la a Kardec para emitir seu parecer.

     Foi, naturalmente, tomado de grande surpresa e espanto, que o Mestre lionês recebeu esse livro que leva o nome de Roustaing. Leu-o e fez seu comentário, que transcreveu na Revista Espirita de junho de 1866.

      Começou, realmente, tecendo alguns elogios à obra, considerando-a um “trabalho considerável”, que tinha o mérito de “não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina dos Espiritos”. Na sua opinião, a obra “encerra coisas incontestavelmente boas e verdadeiras”, chegando mesmo a declarar que ela “será consultada com proveito pelos Espíritas sérios”.

       E é nisto, justamente, que se pegam os roustanguistas, para dizer que não há razão nenhuma para se combater e rejeitar “Os Quatro Evangelhos”, como declarou, recentemente, o Sr. Júlio Damasceno,  num congresso realizado em Goiânia/GO: “ – Como foi possível que, em  pleno séc. XX, tenhamos rejeitado por pura desinformação e ‘pré-conceito’, a maior e melhor obra espírita para estudo dos Evangelhos...”. Reforçou assim a idéia de que a obra “Os Quatro Evangelhos”, evidentemente, tem “uma relação de continuidade e complementariedade” com as de Allan Kardec.

      É que tanto ele quanto todos os roustainguistas da FEB e do C.F.N. da FEB, quando citam esse comentário de Kardec, fazem questão de esconder, de omitir, todos os pontos abordados pelo Codificador, na verdade, nada favoráveis à divulgação da obra de Roustaing. Não interessa  a eles, roustainguistas, pô-los em evidência, porquanto eles mostram, claramente, que o Mestre lionês fez sérias restrições a ela.

       Quais são esses pontos? É o que destacaremos a seguir.