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ASSIM FALOU ALLAN KARDEC

     (Sobre sua iniciação no Espiritismo)

                 “Foi em 1854 que, pela primeira vez, ouvi falar das mesas girantes, ao encontrar por duas vezes  o  magnetizador, Sr. Fortier, que eu já conhecia, pois, como eu, freqüentava também a Associação Parisiense de Magnetismo. No primeiro encontro, ele me comunicou que, além das pessoas, as mesas também podem ser magnetizadas. No segundo, ele  me declarou que, além de se poder magnetizar as mesas, pode-se também conversar com elas. De imediato, não aceitei o que estava ouvindo do meu amigo, e, falando francamente, como é do meu feitio, respondi: ‘ – Isto agora é outra questão. Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se sonâmbula. Enquanto isto não acontecer, permita-me que eu não veja no caso mais do que um conto de fadas, para  fazer-nos dormir em pé’.

“Na verdade, eu estava diante de um fato inexplicado, aparentemente contrário às leis da Natureza. Minha razão repelia a idéia de uma mesa falante. Ainda não entrara na minha mente essa novidade.

                 “Em princípios do ano seguinte, 1855, encontrei-me com um velho amigo, o Sr. Carlotti, que me falou daqueles fenômenos, durante cerca de uma hora, com um entusiasmo que me pareceu bastante exagerado. Por isso mesmo, sua exaltação me deixou deveras desconfiado. Não me convenceram as coisas surpreendentes que me contou. Pelo contrário, minhas dúvidas aumentaram ainda mais.

                “Meses depois, em maio de 1855, fui à casa da  Sra. Roger, que era sonâmbula, em companhia do meu velho amigo, Sr. Fortier, que era seu magnetizador. Em lá chegando, encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison. O Sr. Pâtier era um funcionário público, já de certa idade, muito instruído, de caráter grave, frio e calmo. Sua linguagem pausada, isenta de todo e qualquer entusiasmo, produziu em mim uma viva impressão. Por isso, quando me convidou a assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, aceitei, imediatamente. E lá compareci, na hora marcada para começar a reunião, ou seja, às vinte horas (oito horas da noite) de uma terça-feira do mês de maio de 1855.

“Confesso que foi ali que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Assisti também  a alguns ensaios, muito imperfeitos, de escrita mediúnica numa ardósia, com o auxílio de uma cesta. Foi então que reconheci que havia ali um fato, que, necessariamente, decorria de uma causa. Na verdade, eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, algo como a revelação de uma nova lei. Tomei então a firme decisão de investigar a fundo, para descobrir a verdadeira causa daqueles fenômenos.

                “Numa dessas reuniões em casa da Sra. Plainemaison, vim a conhecer o Sr. Baudin, sua esposa e suas filhas e ele me convidou a assistir às sessões quinzenais que realizava em sua residência.

Lá compareci e gostei tanto que passei a ir, freqüentemente, com muita assiduidade mesmo.

                “Eram bastante numerosas essas reuniões, pois, além dos freqüentadores habituais, eram admitidas pessoas que solicitassem permissão para comparecer. Os médiuns eram as duas jovens, filhas do Sr. Baudin, Caroline e Julie. Escreviam numa ardósia com o auxílio de uma cesta chamada carrapeta.

                “Tive então o ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas formuladas, algumas vezes até  mentalmente, que acusavam, evidentemente, a intervenção de uma inteligência estranha.

“Apareceu depois outra menina, também médium, Srta. Ruth Celine Japhet, filha do Sr. Japhet.

“Eram geralmente frívolos os assuntos ali tratados, coisas que nada tinham de sério, e o Espírito que, geralmente, se manifestava, identificava-se com o nome de Zéfiro. Tratava-se de um Espírito muito bom, que se dizia protetor da família Baudin, e, se por um lado, com freqüência fazia rir, por outro lado, sabia também, quando preciso fosse, dar conselhos ponderados.

“Relacionei-me de pronto com esse Espírito e ele me ofereceu constantes provas de grande simpatia. Reconheço, inclusive,  que, depois, veio a auxiliar-me bastante nos meus trabalhos.

“Em resumo, devo afirmar que foi aí, nessas reuniões, que comecei meus estudos sérios de Espiritismo.

“Em minhas observações constantes, apliquei o método experimental. Nunca elaborei teorias preconcebidas; observava, cuidadosamente, os fatos, fazia comparações, deduzia conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo nunca por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão. Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores, desde os meus 15 anos, portanto, em minha adolescência. Mas compreendi, antes de tudo, a gravidade da explicação que ia empreender. Percebi desde logo, que, naqueles fenômenos, estava a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução do problema que eu procurava em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas idéias e nas crenças. Fazia-se mister, portanto, agir com a maior circunspeção e não levianamente. Era preciso ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir.

                “Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi este: nada mais sendo os Espíritos do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral. O saber de que dispunham se circunscrevia ao grau de adiantamento que haviam alcançado. Logicamente, a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Esta era uma verdade que eu reconhecia e que me preservou do grave erro de acreditar na infalibilidade dos Espíritos; ao mesmo tempo, me impediu de formular teorias prematuras, tomando por base o que foi dito por um ou alguns deles.

“Para mim, os Espíritos foram meios de informação e não reveladores predestinados.

                “Pensando assim foi que empreendi meus estudos e neles prossegui sempre. Observar, comparar, julgar. Esta foi a regra que sempre segui.

“Tentei obter lá, naquelas sessões, a resolução dos problemas que me interessavam, do ponto de vista da Filosofia, da Psicologia e da natureza do mundo invisível. Assim, levava para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas. E elas eram sempre respondidas com precisão, profundeza e lógica.

                “Eu, a princípio, cuidara apenas de instruir-me; depois, quando vi que aquilo constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a idéia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente. Sim, porque foram aquelas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completadas, constituíram a base do meu primeiro livro. Antes, porém, de o lançar ao público, tive o cuidado de submetê-lo ao exame de outros Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns, além daqueles que se manifestavam nas casas do Sr. Baudin e do Sr. Japhet. Por isso, a partir de 1856, passei a freqüentar também as que se realizavam na casa do Sr. Roustan, onde outros médiuns se apresentavam.

“Por recomendação dos próprios Espíritos que aí se manifestavam, tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns, sempre que se apresentava uma ocasião propícia, eu a aproveitava para propor algumas questões que me pareciam mais espinhosas.

                “Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse meu trabalho. Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e, muitas vezes remodeladas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, que foi lançado ao público no dia 18 de abril de 1857.

                “Foi numa das muitas sessões realizadas em casa do Sr. Baudin, realizada em 25 de março de 1856, que vim a saber quem era o meu Guia Espiritual: o Espírito de Verdade, que, como me prometeu, passou, desde então, a se manifestar mensalmente...”

                (Fonte: “Obras Póstumas”, segunda parte)

NOSSO COMENTÁRIO

                Foi assim que se deu a iniciação no Espiritismo do Prof. Denizard Hippolyte Léon Rivail, como foi registrado no Tribunal de Registro de Pessoas Físicas (Cartório do Império Napoleônico, na época) nascido em 3 de outubro de 1804, ou Hippolyte Léon Denizard Rivail, como foi batizado no dia 15 de junho de 1805 na Igreja de Saint-Denis de La Croix Rousse.

                Temos que reconhecer em Allan Kardec a personalidade de um professor emérito e de um grande cientista, não resta nenhuma dúvida.