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ASSIM FALOU ALLAN KARDEC

       (Sobre a natureza do Cristo)

 

                “A questão da natureza do Cristo foi debatida desde os primeiros séculos do Cristianismo e pode-se dizer que ainda não foi solucionada, pois que continua a ser objeto de discussão. Foi a divergêcia das opiniões sobre este ponto que deu origem à maioria das seitas que dividiram a Igreja há dezoito séculos, sendo de notar-se que todos os chefes dessas seitas foram bispos ou membros titulares do clero. Eram, por conseguinte, homens esclarecidos, muitos deles escritores de talento, abalizados na ciência teológica, que não achavam concludentes as razões invocadas a favor do dogma  da divindade do Cristo. Entretanto, assim como hoje, as opiniões se firmaram mais sobre abstrações do que sobre fatos. Sobretudo, o que se procurou foi saber o que o dogma continha de plausível, ou de irracional, deixando-se geralmente, de um lado e do outro, de assinalar os fatos capazes de lançar sobre a questão uma luz decisiva.

                “Mas, onde encontrar esses fatos, senão nos atos e nas palavras de Jesus?

                “Nada tendo Ele escrito, seus únicos historiadores foram os Apóstolos que tampouco escreveram coisa alguma, quando o Cristo ainda vivia. Nenhum historiador profano, seu contemporâneo, havendo falado a seu respeito, nenhum documento mais existe, além dos Evangelhos, sobre a sua vida e a sua doutrina. Aí somente é que se há-de procurar a chave do problema. Todos os escritos posteriores, sem exclusão os de São Paulo,  são apenas, e não poderiam deixar de ser, simples comentários ou apreciações, reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditórias que, em caso algum, poderiam ter a autoridade da narrativa dos que receberam diretamente do Mestre as instruções. 

“Sobre esta questão, como sobre as de todos os dogmas, em geral, o acordo entre os Pais da Igreja e outros escritores sacros não seria de invocar-se como argumento preponderante, nem como prova irrecusável a favor da opinião de uns e de outros, uma vez que nenhum deles citou um só fato, fora do Evangelho concernente a Jesus; que nenhum deles descobriu documentos novos que seus predecessores desconhecessem.

                Os autores sacros nada mais conseguiram do que girar dentro do mesmo círculo, produzindo apreciações pessoais, deduzindo corolários acordemente com seus pontos de vista, comentando sob novas formas e com maior ou menor desenvolvimento as opiniões contrárias às suas. Pertencendo ao mesmo partido, tiveram todos de escrever no mesmo sentido, senão nos mesmos termos, sob pena de serem declarados heréticos, como o foram Orígenes e tantos mais. Naturalmente, a Igreja só incluiu no número dos seus Pais os escritores ortodoxos, do seu ponto de vista; somente exalçou, santificou e colecionou aqueles que lhe tomaram a defesa, ao passo que repudiou os outros e lhes destruiu quanto pôde os escritos. Nada, pois, de concludente exprime o acordo dos Pais da Igreja, visto que formam uma unanimidade arranjada a dedo, mediante a eliminação dos elementos contrários. Se se fizesse um confronto de tudo que foi escrito pró e contra, difícil se tornaria dizer para que lado se inclinaria a balança.

                “Isto nada tira ao mérito pessoal dos sustentadores da ortodoxia, nem ao valor que demonstram como escritores e homens conscienciosos. Sendo advogados de uma mesma causa, e, defendendo-a com incontestável talento, haviam forçosamente de adotar as mesmas conclusões. Longe de intentarmos apontá-los no que quer que fosse, apenas quisemos refutar o valor das conseqüências que se pretende tirar do acordo de suas opiniões.

                No exame que vamos fazer, da questão da divindade do Cristo, pondo de lado as sutilezas da escolástica, que unicamente serviram para tudo embaralhar, sem esclarecer coisa alguma, apoiar-nos-emos, exclusivamente, nos fatos que ressaltam do texto do Evangelho e que, examinados friamente, conscienciosamente, e sem espírito de partido, superabundantemente facultam todos os meios de convicção que se possa desejar.

                Ora, entre esses fatos, outros não há mais preponderantes, nem mais concludentes do que as próprias palavras do Cristo, palavras que ninguém poderá refutar, sem infirmar a  veracidade dos Apóstolos. Pode-se interpretar de diferentes maneiras uma parábola, uma alegoria; mas, afirmações precisas, sem ambigüidades, repetidas cem vezes, não poderiam ter duplo sentido. Ninguém pode pretender saber melhor do que Jesus o que Ele quis dizer, como ninguém pode pretender estar mais informado do que Ele sobre a sua própria natureza. Desde que ele comenta suas palavras e as explica para evitar todo equívoco, é a Ele que devemos recorrer, a menos que lhe neguemos a superioridade que lhe é atribuída e nos sobreponhamos à sua própria inteligência. Se Ele foi obscuro em certos pontos, por usar de linguagem figurada, no que concerne à sua pessoa não há equívoco possível. Antes de examinar as palavras, vejamos os atos...” (“OBRAS PÓSTUMAS” – Estudo Sobre a Natureza do Cristo)