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UM DIA E UM LUGAR PARA JESUS

                               João Roberto do Nascimento, de São Paulo/SP

     “25 DE DEZEMBRO ? Não sabemos, e é quase certo que nunca saberemos com exatidão o dia em que Jesus nasceu; mas o que com toda certeza sabemos é que não foi no dia 25 de Dezembro.

     “Já no séc. IV decidiu-se que o nascimento de Jesus fosse comemorado no dia 25 de dezembro. São João Crisóstomo (autor das famosas Homilias) que vivia por essa época, explica-nos o motivo: - Recentemente decidiu-se que o dia do nascimento do Cristo se fixaria na data do nascimento do deus Mitra, o ‘Sol invicto’, a fim de que os cristãos possam cumprir em paz seus santos ritos, enquanto os pagãos estiverem ocupados nos jogos do circo romano’. Até o início do séc. IV não se comemorava o nascimento de Jesus, e os poucos que o faziam, a exemplo de algumas igrejas cristãs da Grécia, comemoravam no dia 6 de janeiro.

     “Foi somente no ano 525 (no séc. VI portanto) da era cristã que o monge Dionísio Exíguas, a pedido do papa João I, estabeleceu de fato o 25 de Dezembro para se comemorar o nascimento de Jesus. Esse era o dia em que se comemorava o nascimento do deus persa Mitra, o deus Solar; um, entre os muitos deuses adorados pelos pagãos, e que, curiosamente, nascera de uma virgem (?) e em uma gruta (?).

     “O 25 de dezembro era um dia muito festivo em Roma, dia em que as pessoas se confraternizavam, trocavam presentes, e tinham também o hábito de enfeitar os galhos verdes cortados e neles colocarem pequenas luzes; era uma das festas mais populares em Roma.

“A Igreja Romana, de forma sorrateira se apropriou de uma data muito popular em Roma para fixar o nascimento de Jesus no mesmo dia. Além da comemoração do deus Mitra, no dia 25 de Dezembro, também se comemorava nesse dia o nascimento do Imperador Constantino que, na minha opinião, foi de fato, o primeiro Papa da Igreja Romana, já que foi ele (ou sob sua autoridade) quem estabeleceu os fundamentos da Igreja Católica em 325, durante o Concílio de Nicéia.

     “O culto ao deus Mitra foi importado da Pérsia pelos soldados romanos, quando lá estiveram durante as guerras de conquistas. Mas estava fadado a desaparecer com o crescente desprestígio do Politeismo, enquanto que o culto à figura de Jesus ganhava destaque entre os novos adeptos, os pagãos convertidos ao Cristianismo., os quais conservaram nos mesmos moldes orientais os ritos e as festas que faziam  em devoção ao deus Mitra. Só que não era mais o deus persa o festejado e sim a figura de Jesus.

      “Assim como aconteceu em relação à data do nascimento de Jesus, outros fatos e elementos foram também copiados dos cultos pagãos. Assim, Maria, mãe de Jesus, durante o Concílio de Éfeso, cidade onde uma virgem  -  Diana, a caçadora – era idolatrada, passou a ser também adorada como a Virgem Maria.                        

     “Concluindo, podemos dizer, com toda a certeza, que o cristianismo foi romanizado, foi paganizado”.

     “Quanto ao lugar em que Jesus nasceu, temos que reconhecer que a história comovente que situa o nascimento de Jesus em Belém, numa manjedoura, rodeado de animais, visitado por Reis Magos e Anjos para o saudar é de uma beleza sublime, mas que, na verdade, não resiste à mais leve análise.

     “Os únicos Evangelistas que situam Jesus nascendo em Belém, são Mateus e Lucas. Mas, na verdade, somente o primeiro, Mateus, foi apóstolo de Jesus. E os argumentos que apresentam são muito contraditórios.

      “Podemos encarar as passagens dos Evangelhos citados como um processo de superposição. Tenta-se situar Jesus dentro das profecias do Antigo Testamento, que dizia que o Messias teria de surgir do seio de uma virgem descendente de Davi. Para isso, Mateus e Lucas lançam mão de todos os artifícios possíveis, inclusive, forjando genealogias duvidosas e confusas, querendo com isto provar que Jesus também era um descendente de Davi. E utilizam também outros recursos ainda mais surpreendentes. Um deles é uma viagem que não houve

nem poderia ter havido. Por que? Porque Belém ficava no extremo sul de Israel, distante uns 160 quilômetros de Nazaré, uma pequena cidade da Galiléia. Seria uma irresponsabilidade enorme de José ir de Nazaré a Belém, montado em um jumento (mesmo que fosse em um camelo do deserto!), levando sua esposa grávida, que estava prestes a dar à luz. O trajeto demandaria semanas, ainda mais com uma mulher grávida, reclamando todos os cuidados possíveis. E os argumentos usados pelos evangelistas são os mais díspares. Lucas menciona um censo, que, na verdade, nunca existiu e ao qual os romanos não se referem em seus registros; e tampouco um censo exigiria que as pessoas se deslocassem de sua terra de origem para outra, uma vez que a finalidade do censo era a cobrança de impostos.

     “A estrela (símbolo do judaísmo) guiando os Magos, que Mateus menciona, mas Lucas ignora, é um indício da influência do mito que existia entre os judeus: o Messias seria um novo rei de Israel. Os presentes dos Magos Baltazar, Melchior e Gaspar (depois transformados em reis) estão repletos de simbolismo: o ouro representava a realeza, o incenso, a divindade e a mirra, uma resina aromática usada no ato do sepultamento.

     “A matança das crianças, ordenada por Herodes, que se encontra em Mateus, - mas não em Lucas e em nenhum outro documento extra-evangelho – não passa de uma criação da cabeça do Evangelista, para quem Jesus tinha o mesmo papel que fora atribuído a Moisés junto aos judeus; por isso o situa fugindo para o Egito, terra de onde Moisés tirou o seu povo do cativeiro. Ora, conta o Velho Testamento que Moisés quase foi morto pelo Faraó do Egito, quando este, querendo eliminá-lo, baixou uma ordem para matar todas as crianças recém nascidas.

     “Para Marcos, autor do primeiro Evangelho a messianidade de Jesus começou com o batismo nas águas do rio Jordão; para João, autor do quarto Evangelho, Jesus nasceu em Nazaré e dentro da maior normalidade. Sim, há passagens bastante significativas, em João, que não deixam a menor dúvida em relação ao local do nascimento de Jesus..

     “Não podemos ignorar os elementos míticos envolvendo a história do nascimento de Jesus em Belém e ter sido concebido por uma virgem de forma miraculosa: o mito hebraico e o mito pagão. E é um fato  histórico incontestável..  “

“... e é um fato histórico incontestável, não podemos negar, os Evangelhos sofreram influência tanto hebraica como pagã, na sua compilação, pois foram elaborados por essas duas correntes. Esta é a razão pela qual encontramos tanto o mito hebraico como o mito pagão presentes em muitas passagens dos Evangelhos. O mito pagão é aquele que mostra Jesus nascendo de uma virgem e que, derrogando a lei da natureza, que reclama o concurso do sexo, nos passa a idéia de uma concepção excepcional. A tradição pagã está repleta dessas personagens e de seus nascimentos extraordinários ou miraculosos: Osíris, Mitra, Zoroastro, Buda, Mahâvira e tantos outros.

     “Os descendentes da família de Jesus devem ter sofrido muito moralmente, pois a lenda do seu nascimento virginal, defendida pelos cristãos, deu margem a que a calúnia fosse levantada pelos seus adversários. Estes inventaram a história caluniosa de que Jesus  fora um filho bastardo de José, porque, em verdade, o pai de Jesus fora um soldado romano de nome Panthera, que, tendo um caso com Maria, a engravidou (Orígenes: “Contra Celso I”).

     “O segundo mito é hebraico, que dizia que o Messias deveria nascer em Belém e pertencer à  linhagem de Davi.

     “O fato de o Messias vir da Galiléia seria um absurdo. A Galiléia era, pejorativamente, conhecida como a “Galiléia dos gentios”, pois era habitada pelos Goyn, isto é, estrangeiros impuros. A Galiléia, conhecida por sua forte miscigenação, não era bem vista pelos judeus puritanos, que tinham muito orgulho de sua raça. Diante disso, como aceitar que o Messias, o enviado de Yavé, o Deus dos Judeus, poderia ter nascido  em um local tão mal afamado e visto com demérito pelos judeus? Na verdade, muitos anos antes da era cristã (uns 900 anos antes), a Galiléia já era mal vista; era conhecida como “terra de Cabul”, isto é, “inútil”, “desprezível”, “sem valor”.

      “Jesus, escolhendo nascer em Nazaré, dá um belo exemplo de humildade e frustra todos os judeus orgulhosos, que esperavam que o Messias surgisse de Belém, terra de Davi, de forma retumbante e causando

alvoroço, empunhando espada e libertando o povo judeu do jugo do Império Romano. Mas, a revolução a que Jesus estava determinado a promover, era a revolução das atitudes; da caridade irrestrita, do desapego aos bens transitórios, da aniquilação do egoísmo, do orgulho e na exemplificação da boa conduta e no amor ao próximo, e que Deus, pai de infinito amor e misericórdia, sem se importar com nacionalidade ou condição social, ama a todos indistintamente.

     “Em suma, hoje é consenso entre os historiadores: Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. Foi o que escreveu Ernesto Renan, em sua “Vida de Jesus” (1863), elogiada pelo Espírito de Erasto, Discípulo de S. Paulo e Guia Espiritual de Allan Kardec, que disse, em comunicação ditada em 14 de outubro de 1863: “Grande será a repercussão no clero, porque esse livro derroca os próprios fundamentos do edifício em que ele se abriga há dezoito séculos...” (Obras Póstumas).

     “Herculano Pires, profundo conhecedor da mitologia e de sua influência em nosso meio, declarou: “Há um abismo entre o Cristo e o Cristianismo, tão grande quanto o abismo existente entre Jesus de Nazaré, filho de José e Maria, nascido em Nazaré, na Galiléia, e Jesus Cristo, nascido da constelação da virgem em Belém, segundo o mito hebraico do Messias” (“Revisão do Cristianismo”, edição Paidéia).