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ALLAN KARDEC E A REENCARNAÇÃO

                Um dos pontos fundamentais, senão o verdadeiro alicerce do Espiritismo, como já se sabe, é a reencarnação. É bastante ler-se “O Livro dos Espíritos”, pedra angular da doutrina, para que logo se verifique esta verdade, aliás notória.  Teria, porém, Allan Kardec sustentado a tese reencarnacionista até a hora do seu desenlace? Claro que sim, e, se tal não ocorresse, todo o edifício doutrinário do Espiritismo teria de ser modificado. Apesar disso, pouco depois da desencarnação do Codificador, circulou uma notícia, na Europa, insinuando que ele próprio renegara as idéias reencarnacionistas. Dizia-se então: Allan Kardec, antes de morrer, renegou a reencarnação.

                Qual a prova disto? Quando e a quem teria ele feito esta espantosa confissão?

                Nenhum documento, nenhum testemunho, nenhuma prova até hoje! São numerosas, aliás, e cada qual mais bem arranjada, as velhas “histórias” de conversões e abjurações na “hora da morte”. Naturalmente, como não seria possível criar uma história para fazer crer que um homem convicto e sereno, como Allan Kardec, abandonara o Espiritismo, no fim de sua existência terrena, depois de haver dado os mais eloqüentes testemunhos de convicção, espalhou-se o boato de que o Codificador da Doutrina Espírita repudiara a crença na reencarnação, exatamente, no momento da separação do seu Espírito.

                A “história” da renegação ou retratação de Kardec apareceu em 1871, na Europa, e, no ano seguinte, “La Revue Spirite” de fevereiro de 1872 transcrevia e comentava uma comunicação publicada no jornal austríaco “Licht des Jenseits”, na qual ficara bem patente a reafirmação da tese reencarnacionista. Kardec continuava, portanto, no outro plano,  a manter as suas idéias reencarnacionistas, sem qualquer dúvida ou reserva.

                Se, realmente, Allan Kardec houvesse feito, na hora da morte, ou depois dela, qualquer declaração desfavorável à reencarnação, os íntimos ou familiares, pelo menos, deveriam saber disto, cedo ou tarde.

A viúva de Kardec, aquela dedicada companheira de lutas, que se chamava Amélie Boudet, ainda ficou encarnada por algum tempo (...) e nunca se soube sequer de um momento de recuo de Allan Kardec, em relação à tese da reencarnação.

              A direção da “Revista Espírita” pôs as coisas nos seus devidos termos, tendo invocado até uma circunstância muito significativa no caso: poucos dias antes de sua morte, no ano de 1869, ele, Kardec, fizera a revisão de nova edição de “O Livro dos Espíritos”, ainda publicado sob sua responsabilidade pessoal. Se, portanto, nessa oportunidade, ele não estivesse mais seguro quanto à validade da tese reencarnacionista, teria introduzido modificações no texto doutrinário da sua obra.

             Na mesma ordem de idéias, levantou-se outra questão, também posterior à desencarnação do Codificador: se as palavras, para Allan Kardec, nada significavam, poder-se-ia substituir a palavra Espiritismo por outra mais adequada (...).

             Para provar que Kardec prezava muito o valor exato das palavras, e foi por isso mesmo que criou a palavra Espiritismo, sabendo muito bem o que estava fazendo, “La Revue Spirite” transcreve, no mesmo número, com toda fidelidade, uma parte da introdução de “O Livro dos Espíritos”, precisamente a edição revista em 1869, na qual se vê a mesma expressão inicial: “Pour les choses nouvelles, il faut des mots nouveaux...” (Le Livre des Esprits” – Editions PHILMAN – Introduction, item I).  Ora, se Kardec não fazia questão de palavras, como então se propalou, como é que ele próprio, ao fazer a última revisão de “O Livro dos Espíritos”, manteve as mesmas expressões iniciais? (...)

             De tudo isso se conclui que Allan Kardec: em primeiro lugar – manteve a palavra Espiritismo com todo o cabimento; em segundo lugar: sustentou inteiramente o princípio da reencarnação, como fundamento filosófico do Espiritismo.

                          Prof. Deolindo Amorim

(Este artigo foi publicado na “Revista Estudos Psíquicos”, de Lisboa/Portugal, em julho de 1958, e, por sua vez, transcrito no livro “Análises Espíritas”, 2ª edição da FEB – 1995, págs. 124 a 127).

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