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O CASO PIETRO UBALDI

                 Tenho em mãos, neste momento, o livro “A GRANDE SÍNTESE”, de autoria de Pietro Ubaldi, e, como na biografia de José Herculano Pires, escrita por Jorge Rizzini há um capítulo em que se focaliza o que ficou na história como “o caso Pietro Ubaldi”, achamos por bem focalizar esse tema com mais profundidade.

Visamos com isto esclarecer os mais jovens, que fazem cursos e participam de mocidades espíritas e grupos de estudos doutrinários, procurando compreender melhor o que tem se passado dentro do movimento espírita nacional.

                O livro “A Grande Síntese” de Pietro Ubaldi foi traduzido do italiano por Guillon Ribeiro e publicado no Brasil em 1939 pela Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira (FEB).

                No “Prefácio” Guillon Ribeiro transcreve uma mensagem ditada pelo Espírito Emmanuel – leia-se Padre Manoel da Nóbrega - e psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, em que o mentor do Chico começa “saudando uma luz como esta, que se desprende da grande voz silenciosa da ‘Grande Síntese”. E, quase no final , numa demonstração de grande entusiasmo pelo que foi escrito pelo médium italiano, classifica “A Grande Síntese” como “o Evangelho da Ciência, renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindo-as à revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os institutos da evolução terrestre”, e, num apelo místico que exprime muito bem sua formação religiosa jesuítica, exclama Emmanuel: “Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre, e agradeçamos de coração genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos desse altar da esperança e da sabedoria, onde a ciência e a fé se irmanam para Deus”.

                Isto posto, vejamos agora porque motivo Jorge Rizzini, ao escrever a biografia do Mestre José Herculano Pires, fez referência ao que considerou o “Caso Pietro Ubaldi”.

          Primeiramente ele diz quem era Pietro Ubaldi: “Escritor e sensitivo nascido em Gúbio (Itália), em 1886 e desencarnado no Brasil aos oitenta e cinco anos de idade, Pietro Ubaldi celebrizou-se com a obra ‘A Grande Síntese’, cujas páginas recebera intuitivamente da Alta Espiritualidade e cuja Entidade ele fazia conhecer com o pseudônimo de ‘Sua Voz’. Elogiada por cientistas, entre os quais Albert Einstein e Enrico Fermi (inventor da pilha atômica) e intelectuais do porte de Ernesto Bozzano, (...) foi ‘A Grande Síntese’, primeiramente traduzida para o nosso vernáculo por Guillon Ribeiro e publicada pela FEB (...) conquistando a intelectualidade espírita de norte a sul  e recebendo elogios, inclusive do Espírito Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier (...) Mas, terminada a fase de namoro com esses livros, as lideranças espíritas notaram que alguns conceitos ubaldinos conflitavam com o Espiritismo e os livros de Pietro Ubaldi passaram a ser vistos com reservas...”

                Em seguida, Rizzini mostra qual foi a atitude tomada por José Herculano Pires, dizendo que ele, “com seu infalível bom senso, porém, escreveu estas palavras a respeito de Pietro Ubaldi. E transcreve o que foi dito pelo Mestre: “Simplesmente humano, ele é um espirito da maior amplitude, aberto às altas indagações da mais pura filosofia espiritualista (...) o fato de Ubaldi não se dizer espírita, não se filiar à doutrina, não tem a menor importância, pois o que define a sua posição é a natureza da sua obra e não a sua posição pessoal. Tanto mais que ele afirma estar fora de sua consciência normal, sempre que trabalha os seus livros”.

                E prossegue Jorge Rizzini: “Herculano Pires, admirador de ‘A Grande Síntese’ (...) foi, no entanto o primeiro a apontar publicamente, ‘falhas de percepção e alguns desajustamentos’ na obra máxima do sensitivo italiano. E mais tarde assumiria atitude  enérgica em relação às pretensões e críticas de Pietro Ubaldi à obra da Codificação. O fato deu-se por ocasião do Sexto Congresso Espírita Panamericano, realizado em outubro de 1963 em Buenos Aires. Ubaldi enviara ao congresso uma tese (...) cujo teor absurdo os ubaldistas de São Paulo divulgaram antes pela imprensa profana e cujas conclusões insólitas são estas:

1. O Espiritismo estacionou na teoria da reencarnação e na prática mediúnica;

2. Não possuindo um ‘sistema conceptual completo’, não pode ele ser levado a sério pela cultura atual;

3. A filosofia espírita é limitada, não oferece uma visão completa do todo e “não abrange todos os momentos da lei de Deus”; (grifos nossos)

4. O Espiritismo não construiu uma “teologia espírito-científica’, que explique o que a católica não explica”.

5. O Espiritismo corre o perigo de ficar parado no nível Allan Kardec, como o catolicismo ficou no nível São Tomás e o protestantismo no nível Bíblia.

                E, para “salvar” o Espiritismo, Pietro Ubaldi propunha que seus livros fossem adotados pelo movimento doutrinário... (grifos nossos)

                Herculano Pires, com a rapidez que o assunto exigia, redigiu um artigo que fez publicar no “Diário de São Paulo” e na “Revista Internacional de Espiritismo”, do qual destacamos o seguinte trecho:

     “A sua crítica ao Espiritismo, resumida nos cinco pontos acima, coincide com a dos adeptos menos instruídos na doutrina, e pode ser respondida, ponto por ponto, por qualquer adepto de inteligência e cultura medianas, que conheça a Doutrina Espírita. Por outro lado, o oferecimento de suas obras ao Espiritismo revela desconhecimento da natureza da nossa doutrina e das exigências metodológicas para a aceitação da proposta, que não cobre essas exigências.

                “Ubaldi desenvolveu suas faculdades mediúnicas à margem do Espiritismo. Seu primeiro livro, ‘A Grande Síntese’, apresenta curioso paralelismo com o Espiritismo, o que lhe valeu a simpatia e a amizade  dos espíritas brasileiros. Na Itália ou no Brasil, porém, recusou-se sempre a integrar-se no movimento espírita, filiando-se na península à corrente Ultrafania, do prof. Trespioli, que pretende haver superado a concepção Espírita. Em seu livro ‘As Noúres’, Ubaldi nos oferece a concepção ultrafânica da mediunidade, na qual enquadra o seu caso pessoal. É uma pretensiosa concepção de mediunidade cósmica, fugindo à naturalidade e simplicidade das comunicações espirituais entre espíritos desencarnados e médiuns. As pretensões de Ubaldi transformaram-no, de simples médium, em autor messiânico, agora arvorado em reformador do Espiritismo.

                “Respondemos  aos ítens de sua crítica da seguinte maneira: (1) O Espiritismo é uma doutrina evolucionista, como provam as suas obras fundamentais e o seu imenso desenvolvimento em apenas cem anos de existência; (2) O sistema conceptual espírita é completo, e sua síntese está em ‘O Livro dos Espíritos’; (3) A filosofia espírita não pode abranger o Todo e muito menos ‘todos os momentos da lei de Deus’, porque isto não está ao alcance de nenhuma elaboração mental, no plano relativo da vida terrena; (4) A teologia espírita é limitada às possibilidades atuais do conhecimento de Deus, segundo ensina Allan Kardec, e essas possibilidades não admitem ainda a criação na Terra de uma teologia-científica, nem dentro nem fora do Espiritismo; (5) O ‘nível Allan Kardec não é o do Espiritismo, mas sim o nível Espírito da Verdade’, de quem Kardec, segundo dizia, foi um ‘simples secretário’.

E, - continua Jorge Rizzini -, Herculano Pires assim encerra seu artigo: “Não sabemos ainda como o Congresso de Buenos Aires recebeu a proposta de Ubaldi. De nossa parte, não obstante o respeito que votamos ao médium e a sua obra, altamente inspirada, não poderíamos dar-lhe outra resposta, além da que apresentamos nestas linhas. Se Ubaldi tivesse lido “O Livro dos Espíritos”, certamente jamais faria a proposta que fez. Mesmo porque, a sua obra como a de Flammarion, a de Delanne, a de Denis, a de Bozzano, e tantas outras, longe de completar o Espiritismo, apenas procura desenvolver alguns dos grandes temas que o Espiritismo levantou e sustenta no mundo moderno”.

                Diz também Jorge Rizzini: “Informamos ainda que a comissão redatora dos anais do Sexto Congresso Espírita Pan-americano (...) respondeu às críticas e pretensões de Pietro Ubaldi, transcrevendo, integralmente, os cinco itens acima redigidos por Herculano Pires. Posteriormente, outros confrades refutaram a proposta de Ubaldi, inclusive, Mariotti, de maneira brilhante”.

                (Trecho extraído de “J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec” de Jorge Rizzini, págs.247 a 251 – Editora PAIDÉIA, São Paulo/SP – 2001).

 OBSERVAÇÃO IMPORTANTE

                 Lembro-me bem! Meu querido e saudoso pai, Severino de Freitas Prestes Filho, observador à distância do movimento espírita, por determinação dos Amigos Invisíveis, sempre foi muito atento às novidades do dia. Por isso  logo adquiriu um exemplar de “A Grande Síntese” de Pietro Ubaldi, que leu com espírito crítico, como era do seu feitio. E fez sérias restrições.

                Leu também as propostas apresentadas por Pietro Ubaldi ao Congresso Pan-americano de Buenos Aires. Achou-as absurdas e ridículas. E vibrou de alegria ao tomar conhecimento, pela imprensa, da atitude corajosa e leal do grande escritor espírita, José Herculano Pires. Sim, mostrou-se plenamente solidário com o “Apóstolo de Kardec”, cuja resposta dada ao médium italiano aplaudiu com muito entusiasmo. Foi o que deixou bem claro em nossas conversas em família, enquanto pairou no ar o “caso Pietro Ubaldi” a que se referiu o confrade Jorge Rizzini.

                Mas os roustainguistas até hoje, não gostaram nada do que disse o prof. Herculano Pires a Pietro Ubaldi.  Querem uma prova do que estamos afirmando? Muito bem, aí vai.

                No  mês de setembro de  2002 o escritor roustainguista Jorge Damas Martins me mandou pelo Correio um exemplar do livro “Para Entender Pietro Ubaldi”, que escreveu, em parceria com Júlio Couto Damasceno, também roustainguista. Esse livro foi lançado pela Editora LACHÂTRE. Logo no prefácio, o Sr. Stenio Monteiro de Barros, também roustainguista, faz a apologia da obra, dizendo ao leitor que a leia, pois nela “compreenderá, com fascínio, a magnitude dos ensinamentos de Pietro Ubaldi, revelados com propriedade pelos autores”.

                Outro exemplo elucidativo: Existe no Rio de Janeiro/RJ uma Casa Espírita, cujo Espírito Protetor é o Dr. Bezerra de Menezes (roustainguista) que, periodicamente, lança ao público um boletim intitulado “O CRISTÃO ESPÍRITA” no qual há uma seção, que ocupa uma página inteira dividida em três colunas. Na primeira, abaixo da foto do Codificador do Espiritismo, está escrito em letras garrafais: “LEIA MAIS KARDEC”, seguindo-se um trecho do “Livro dos Espíritos” – parte II, Cap. IV, nº 171). Na segunda (coluna do meio), ao invés do retrato de Roustaing, aparece uma foto da capa do vol. I de “Os Quatro Evangelhos”, e, em baixo, a legenda “LEIA MAIS ROUSTAING”, também com letras garrafais, seguindo-se um trecho da obra “Os Quatro Evangelhos”, Tomo II, ítem. 140. Na terceira coluna, abaixo da foto de Pietro Ubaldi, aparece também em caixa alta a legenda: “LEIA MAIS UBALDI”.

                Como se vê os roustainguistas, que se dizem kardecistas, são também ubaldistas, fingindo que não sabem que, para Pietro Ubaldi, “O Espiritismo estacionou na teoria da reencarnação e na prática mediúnica, e, não possuindo um sistema conceptual completo, não pode ser levado a sério...” Fingem também que não sabem que Pietro Ubaldi  “recusou-se sempre a integrar-se no movimento espírita”, como denunciou Herculano Pires.

                E os dirigentes da FEB embarcam na mesma canoa, pilotando o CFN (Conselho Federativo Nacional), cujos tripulantes são os representantes das Federativas Estaduais, que amordaçados pelo mito da unificação e com os olhos vendados pelo “Pacto Áureo”, fingem que nada sabem, e mostram-se convencidos de que tudo vai muito bem dentro do movimento espírita  brasileiro.