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ESPIRITISMO DE UMBANDA!!!

PODE ISSO ?!

 

                De Belo Horizonte me escreve, via-email o confrade e amigo Elcio Ferreira Marques, dizendo:

“Estou lendo, presenteado pela Tânia Perácio, a obra do Jorge Rizzini intitulada “J. Herculano Pires, O Apóstolo de Kardec”. De fato, quanta falta ele faz ao movimento espírita, não é mesmo! Em Minas, temos três médiuns em evidência nacional: Carlos Baccelli, chiquista e defensor da tese simplória de que Chico foi Kardec; Robson Pinheiro, cujas obras dizem que o Espiritismo é pensamento para intelectuais e que, quando Jesus VIU SEU ERRO mandou a UMBANDA (????) para o Brasil, que seria para os humildes (??), e, finalmente, Wagner Gomes da Paixão, visivelmente homossexual (sem preconceito) e que vive psicografando mensagens de Emmanuel, que a própria Federação diz estar encarnado e que vive sempre ao lado do Presidente da União Espirita Mineira, para psicografar, em eventos, sempre nomes como Bezerra, Emmanuel e outros! Erasto, meu confrade e amigo, a palavra está contigo”.

MINHA RESPOSTA

      Caro Elcio, muito agradecido por ter-me dado a palavra para expressar o meu pensamento.

       Realmente Herculano Pires, “o Apóstolo de Kardec” está mesmo nos fazendo muita falta!

       Essa do Robson é mesmo de arrepiar os cabelos: declarar que Jesus cometeu um erro, mandando-nos “o Consolador Prometido”, ou seja, “o Espiritismo”, que “é pensamento para intelectuais”, mas, ao mesmo tempo,  para corrigir esse erro, naturalmente, depois de muita reflexão e exame de consciência, mandou também “a Umbanda para o Brasil”, preocupado que estava com os humildes, ou seja, os ignorantes, os analfabetos, os incultos... isto é mesmo de estarrecer!

       Como pode uma coisa dessas?!

        Amigo Elcio, a propósito desse despautério, devo dizer-lhe que, como acontece com você e muitos confrades ilustres, isto vem sendo objeto constante de minhas preocupações. Cheguei mesmo a colecionar inúmeros recortes de jornais e revistas espíritas e não espíritas, em que esse disparate é focalizado, uns favoráveis, outros, inteiramente contra. Estão guardados comigo desde os anos setenta e oitenta, esperando, naturalmente, uma oportunidade para virem a público, o que está acontecendo agora, graças à sua colaboração valiosa.  Nesse meu boletim informativo, vou apresentar alguns.

       Antes, porém, alguns esclarecimentos necessários.

       O Dr. Armando Cavalcanti Bandeira, em seu livro “O QUE É A UMBANDA – ENSAIO HISTÓRICO DOUTRINÁRIO” lançado pela Editora ECO em 1970, inicialmente nos dá a etimologia do vocábulo “Umbanda” e nos diz como se deu a evolução do chamado “sincretismo” religioso no Brasil. Depois faz uma distinção entre “Umbanda” e “Candomblé” e  uma referência ao chamado “Espiritismo de Umbanda e Mediunidade”.

        Vamos então citar na íntegra o que se encontra na página 34 dessa obra: “... A Umbanda é um novo culto brasileiro do séc. XX, provido do sincretismo religioso de práticas e fundamentos católico-banto-sudaneses, apresentando algumas fusões ameríndias e orientais com observância do ‘Evangelho segundo o Espiritismo’ de Allan Kardec, constituído de planos espirituais evolutivos pela reencarnação.

       “A Umbanda”, - prossegue o autor – é um culto espírita brasileiro, com ritual afro-ameríndio, enriquecido com alguma liturgia católica”. E, citando Fabrício Orunmilá, que classifica como profundo conhecedor dos cultos, conclui seu pensamento, dizendo: “É um culto espírita, ritmado e ritualizado”

      Ficou assim bem claro que “a Umbanda é um culto espírita brasileiro”.

      Mais adiante, nas págs. 107 a 112, Cavalcanti Bandeira nos fala, exaustivamente de “Espiritismo de Umbanda e Mediunidade”, e começa esse capítulo assim: “A Umbanda é caracteristicamente um culto espírita, não só pelas razões históricas de sua formação sincrética, como pelos seus aspectos doutrinários e práticos de mediunismo em suas diversas modalidades, sendo medianeira nas comunicações dos Espíritos. Claro que é um Espiritismo com ritual e ritmado ao som de cânticos, e, vez por outra, com algum instrumento musical, seja nas sessões em ‘terreiros’, ou em edifícios”.

     Prosseguindo em sua argumentação, diz Cavalcanti Bandeira: “Esse ponto definitivo já fôra assentado desde 194l, quando se realizou o I Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, como a própria denominação define. Fato bem esclarecido, como se verifica pela leitura da maioria dos estatutos sociais dos Centros e Terreiros, onde afirmam ser um culto espiritista ou de caráter espírita...”

      Tomando por base de seus argumentos, cita Benedito Ramos da Silva, que, em seu livro “Ritual de Umbanda” deixou bem claro que “Umbanda é espiritismo prático, é magia branca, é sessão de espiritismo, realizada em mesa ou em terreiro, para a prática do bem, e foi trazida para o Brasil pelos pretos africanos”.

       E prossegue Cavalcanti Bandeira:

     “Repousa a Umbanda essencialmente na prática da mediunidade, e não há um só umbandista que discorde do conceito de que a base do culto seja espírita, inclusive até os que pretendem combatê-la não se cansam de afirmar que (a Umbanda) é espiritismo... (pág. 107).

        Nesse trecho do seu livro,  -  pasmem os leitores !  - sabem quem é que o Dr. Cavalcanti Bandeira apresenta para defender seu ponto de vista? Os dirigentes da Federação Espírita Brasileira. Sim, é isto mesmo: OS DIRIGENTES DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Parece mentira, mas não é!

       Vejamos então o que escreveu o Dr. Cavalcanti Bandeira: “A declaração mais firme e valiosa é o seguinte ‘Parecer da Comissão de Doutrina’, indicada pelo Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira. Sim, a FEB, a chamada “Casa Mater do Espiritismo no Brasil”.

      Essa “Comissão”, da qual fazia parte o Deputado pelo Estado da Guanabara, Dr. Átila Nunes, assim se pronunciou, conforme se pode ler na revista “REFORMADOR” – órgão de divulgação da FEB”, em sua edição de maio de 1966, pág. 115, transcrevendo, por sua vez, o que fôra apresentado na mesma revista, edição de julho de 1953 (págs. 149 e 150): “Todo aquele que crê nas manifestações dos espíritos é espírita; ora, o umbandista nelas crê, logo o umbandista é espírita.”.

      E lembra muito bem o Dr. Cavalcanti Bandeira que essa Comissão supracitada, baseando-se no que havia afirmado o Conselho Federativo Nacional da FEB, reunido no Rio de Janeiro, em 1926, assim como as Diretorias anteriores da Casa de Ismael (a FEB), sempre reconheceram  Umbanda como Espiritismo, dizendo: “É Espiritismo, sim, - viviam declarando - mas não é Doutrina Espírita”, o que foi confirmado mais tarde, ou seja, em 1953: “Não mais podemos pretender o uso exclusivo das palavras ‘espírita’ e ‘Espiritismo’, embora tenham sido criadas por Allan Kardec, e sermos todos nós kardequianos...”

       Como se vê, os roustainguistas febeanos se posicionam acima do Codificador, desde o início do século passado, XX.

       E, como sabemos, foram essas declarações estapafúrdias das diretorias da FEB, incluindo-se, é claro, a “malfadada” entrevista concedida por Wantuil de Freitas, em 1953 ao confrade e repórter Geraldo de Aquino, apresentada no programa radiofônico “Hora Espiritualista João Pinto de Souza” da Rádio Clube do Brasil, que provocaram aquela celeuma toda. Sim, aquele escândalo que fez com que vários espíritas sérios, responsáveis, fiéis a Kardec, levantassem sua voz de protesto no Clube dos Jornalistas Espíritas, fundado e muito bem dirigido por José Herculano Pires, “o Apóstolo de Kardec”. Foi o que registramos no número de dezembro/2006 do nosso “O FRANCO PALADINO” (“Triste Episódio” ocorrido em 1953, págs. 2, 3 e 5).