ofplogo.gif (4994 bytes)ROUSTAING CRITICA DURAMENTE KARDEC


Nós já fizemos referência a este triste episódio da História do Espiritismo, em uma edição anterior do nosso informativo mensal. Todavia, achamos oportuno voltar ao assunto, tendo em vista a atitude do jornalista Luciano dos Anjos, roustainguista fanático, que já deve ser do conhecimento de todos.

Conforme noticiou o jornal "Opinião", órgão do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre/RS: "Ao convocar uma Assembléia Geral de seus associados para reforma estatutária, visando à adequação de seus atos constitucionais às normas do novo Código Civil Brasileiro, a Federação Espírita Brasileira incluiu na pauta também a retirada de recomendação expressa em seu estatuto do estudo da obra ‘Os Quatro Evangelhos’ do advogado francês J. B. Roustaing, doutrina conhecida entre os espíritas como ‘roustainguismo’ ou ‘rustenismo’ (...) A tentativa de alteração estatutária terminou provocando ação judicial promovida pelo escritor espírita-roustainguista Luciano dos Anjos, sob o argumento de que o estudo da obra de Roustaing, implica em base doutrinária, estatutariamente, imodificável. Luciano obteve liminar na justiça carioca, impedindo a apreciação dessa proposta na Assembléia Geral da F.E.B.".

De fato, soubemos disto quando estávamos no dia 23 de novembro (Sábado) no Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB), assistindo à brilhante palestra do Prof. Sérgio Fernandes Aleixo. Após seu pronunciamento, o Sr. César Reis, tomando a palavra, nos deu essa informação.

Por conseguinte, por decisão da Justiça, o artigo 1º do Estatuto da Federação Espirita Brasileira (FEB), não pode ser objeto de discussão, muito menos, modificado, por ser considerado "cláusula pétrea", como diziam os romanos. E nesse artigo está incluído o parágrafo único que diz que "além das obras básicas a que se refere o inciso I, o estudo e a difusão do Espiritismo, compreenderão também a obra de J. B. Roustaing e outras subsidiárias e complementares da Doutrina Espírita". Isto tem que permanecer por força dessa liminar judiciária.

Pelo que parece, os espíritas nacionais, que se dizem kardecistas, se curvaram diante dessa decisão. Portanto, o Estatuto da FEB só será objeto de discussão a partir do segundo capítulo.

Esqueceram eles que há em "O Evangelho s/o Espiritismo" de Allan Kardec, um capítulo (o XVI), em que Jesus, o Homem de Nazaré, deixou bem claro que "não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores, ou seja, a Deus e a Mamon" (S. Lucas, cap. XVI, v. l3).

Sabemos todos que a Federação Espírita Brasileira, que se declara cem por cento kardecista, é também cem por cento roustainguista. E, como ela é reconhecida, legalmente, como instituição máxima e representante do movimento espírita brasileiro, no Brasil e no exterior, nós espíritas, por uma questão de lógica e de bom senso, temos também que ser, ao mesmo tempo, kardecistas e roustainguistas. Assim, temos que aceitar que Jesus foi um homem de carne e osso, como nós; como afirmou Kardec em "A gênese", mas temos que aceitar também o que disse Roustaing, ou seja, que Jesus não foi um homem de carne e osso, como nós, e sim um corpo fluídico, um agênere. E isto – essa duplicidade de pensamentos - vale para tudo que declarou Kardec em suas obras, como vale também para tudo que disse Roustaing em seus "Quatro Evangelhos".

Agora, os espíritas, que se ufanam em declarar-se kardecistas, esquecem que Roustaing criticou duramente Kardec, como nosso saudoso confrade e grande defensor da "pureza doutrinária", Gélio Lacerda da Silva, em seu magnífico livro "CONSCIENTIZAÇÃO ESPÍRITA" (Pág. 30) nos mostrou. E Gélio fez menção à Revista Espírita de junho de 1866, em que Kardec declarou: "... até nova ordem, não daremos às suas teorias (teorias de Roustaing) nem aprovação, nem desaprovação...", e, mais adiante: "... até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita." (Revista Espírita, junho de 1866, pág. L89).

Portanto, se o próprio Mestre Allan Kardec, o verdadeiro e único missionário da Terceira Revelação, não aprovou as teorias de J. B. Roustaing, declarou, inclusive, que não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita, o parágrafo único do art. 1º do Estatuto da F.E.B., não pode ser considerado como "cláusula pétrea", ou matéria indiscutível, como alegou o Sr. Luciano dos Anjos, ao justificar seu pedido de liminar. E o juiz que a concedeu demonstra claramente que ignora completamente tanto a Doutrina dos Espíritos, codificada por Allan Kardec, como a própria doutrina do corpo fluídico de Jesus, defendida por Roustaing e pregada pelos roustainguistas da F.E.B.

E tem mais. A F.E.B., ao ser registrada em cartório como pessoa jurídica, em 1884, teve que apresentar seu Estatuto, no qual não aquele parágrafo único. Foi em 1904, com a aprovação do documento intitulado "Bases de Organização Espírita" que o estudo da obra de Roustaing foi recomendado. E essa recomendação só foi incluída no Estatuto da FEB, em 1914, na presidência de Aristides de Souza Spínola, após uma assembléia muito tumultuosa. Portanto, este tema "manter ou excluir Roustaing do Estatuto da F.E.B." já vinha sendo objeto de discussão na alta cúpula da instituição máxima do Espiritismo nacional. Não é surpresa para ninguém que conhece um pouco da história do nosso movimento. Se já era discutido, é porque era passível de discussão. Como é que agora, que estamos no início de um novo século e de um novo milênio, também não pode ser discutido?!

Razão de sobre teve nosso saudoso companheiro Gélio Lacerda da Silva, ao propor que se entrasse com um processo na Justiça contra a F. E. B., com o objetivo de se extrair do artigo 1º do seu Estatuto essa verdadeira excrescência que é o seu parágrafo único. Não sei em que deu essa iniciativa do saudoso amigo, nem qual foi a posição assumida pela Associação dos Magistrados Espíritas Brasileiros, que devem se pronunciar agora sobre esse assunto, já que quem puxou a discussão foi o próprio Sr. Luciano dos Anjos com essa atitude inquisitorial que adotou.

Vamos ver como vai terminar essa questão!

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