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“O QUE É O ESPIRITISMO”

      Nesse pequeno livro, publicado em 1859,  Allan Kardec definiu o Espiritismo como sendo “ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações”.

     E, para que ficasse bem claro o seu pensamento, acrescentou: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal”. (“O Que é o Espiritismo – Preâmbulo)

     Como se vê, Kardec fez questão de não dizer que o Espiritismo era uma religião. E , ao dialogar com um padre, depois de reconhecer que “o Espiritismo está de acordo com as grandes verdades do Cristianismo”,  voltou a frisar que “o Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, e não se ocupa com questões dogmáticas. Essa ciência tem conseqüências morais, como todas as ciências filosóficas...” (obra citada).

    Foi somente em fins de 1868, depois de ser constantemente questionado pelos confrades, seus contemporâneos, que Allan Kardec, com sua autoridade de Codificador da Doutrina Espírita, se sentiu obrigado a declarar que o Espiritismo era também uma religião. Isto  ficou bem claro no seu discurso pronunciado na Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, realizada na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, quando disse: “ – Sim, o Espiritismo é uma religião, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza” (“Revista Espírita”, dezembro de 1868). Mas, acrescentou, “o Espiritismo não tem nenhum dos caracteres de uma religião”, pois, “se o Espiritismo se dissesse uma religião...!

    O público não veria aí senão uma nova edição, uma variante dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública”. (ídem)

     Para Kardec a palavra “religião” significa “um laço para religar os homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças.” (idem)

     Pois bem, falando nisso, no final do séc. XIX, apareceram no Brasil os chamados “pioneiros” do Espiritismo, trazendo nas mãos “A Gênese” de Allan Kardec, que diz que Jesus, homem, nasceu de parto normal, como todos nascem, e, ao mesmo tempo, trazendo também a  obra “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, que diz: “O nascimento de Jesus foi obra do Espírito Santo...”. (Grifo nosso)  E mais: “A gravidez de Maria foi aparente”. “Ela pensou que estava grávida, mas não estava”. E foi fácil ser enganada pelos prepostos do Senhor, porque “Maria era quase uma criança e pouco experiente das coisas humanas...”. Após o parto, que “também foi aparente” e não real, como acontece com todas as mulheres, Maria tomou nos braços o filhinho recém nascido, pensando que era uma criancinha como todas as outras, “mas não era: tinha apenas a aparência de um corpo humano”. Nem podia ser de outro modo, porque, “avisada pelo Anjo, ela se entregou ao Espírito Santo”, que fez  tudo muito direitinho, como manda o figurino. Por isso, Roustaing repete muitas vezes: “O nascimento de Jesus foi obra do Espírito Santo, pura aparência” (“Os Quatro Evangelhos” de J. B. Roustaing, vol. I, págs. 199 a 207).

     E ninguém pode contestar Roustaing, os dirigentes roustainguistas da FEB, e os membros roustainguistas do Conselho Federativo Nacional da FEB. De acordo com o que ficou estabelecido pelo “Pacto Áureo”     

quem ousa levantar a voz em sinal de protesto, é logo tachado de mau companheiro, de criador de caso, de perturbador da ordem, de obsedado. Deve ser tratado, mas não levado a sério.

     No entanto, prezados leitores,  verdade seja dita: aí está a implantação do dogma da concepção milagrosa de Jesus, por obra e graça do Espírito Santo. É isto que nos diz a “História da Igreja Católica” de Pierre Pierrard, e qualquer livro de Doutrina da Igreja Católica, como o de Mons. Francisco Pascucci, intitulado “Doutrina Cristã”, pág. 49 – Editora ABC, Rio de Jneiro/RJ – 1939. Sim, UM DOGMA! Triste verdade!...

      Para confirmar o que estabeleceu a obra de Roustaing, nos anos vinte do século passado, reapareceu no Brasil, em Espírito,  o célebre padre jesuíta Manoel da Nóbrega (Emmanuel ou “Deus conosco”). E seu médium, Chico Xavier, psicografou a obra do Espírito Humberto de Campos, intitulada “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, prefaciada por Emmanuel e publicada pela FEB, onde se lê, logo no início que “no último quartel do sec. XIV, o Senhor (Jesus), sim o Cordeiro de Deus, desejando realizar uma de suas visitas periódicas à Terra, aqui chegou com seu cortejo de Anjos e Tronos...” E, foi aqui, na Pátria do Cordeiro de Deus, que a Federação Espírita (Roustainguista) Brasileira “assentou sua tenda de trabalho espiritual”.  (Humberto de Campos (Espírito), obra citada, pág. 221)

      Em conseqüência disto, o Espiritismo se transformou numa nova religião, porque, segundo Emmanuel, é “no aspecto religioso que repousa sua grandeza divina...” (Grifo nosso)

(Ver “O Consolador”, - Definição – Comunicação ditada ao Chico Xavier em 8 de março de 1940, em Pedro Leopoldo/MG)

       Aí está a razão pela qual em muitos centros espíritas  tornou-se hoje um hábito normal começar as preces de abertura e de encerramento dos trabalhos, nas sessões de estudo doutrinário e outras, com a invocação de Jesus (o Cordeiro de Deus, o  próprio Deus da Santíssima Trindade) e da Virgem Maria, a Mãe Santíssima. A invocação de Deus, - “Inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas”, como está em “O Livro dos Espíritos” ficou em terceiro lugar, ou melhor, em plano inferior, em plano secundário!

     Desrespeita-se assim a “Lei de Adoração”, cujo objetivo é “a elevação do pensamento a Deus; aproximar a alma da Divindade” (L.E. Livro III, cap. II, questão 646). E os próprios Espíritos superiores definiram a prece como “um ato de adoração a Deus”, ou seja: “Pensar em Deus; aproximar-se de Deus; colocar-se em comunicação com Deus.” (idem, questão 659)

     Na “Coletânea de Preces Espíritas” (cap. XXVIII de “O E.S.E.), verifica-se que todas as preces que Kardec  transcreveu começam sempre com uma invocação a Deus, Onipotente, Todo-Poderoso. O próprio Jesus deu o exemplo, ao nos ensinar o “Pai Nosso” – Oração dominical (“Pai Nosso que estais no Céu,...”).